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Introdução:
O I Simpósio Ibero-Americano de
“Ecologia Reprodutiva, Recrutamento e Pesca” nasce em resposta a
uma inquietação dos pesquisadores pesqueiros latino-americanos,
espanhóis e portugueses por fomentar a colaboração entre os dois
lados do Atlântico. A pesca, tanto industrial como artesanal, é
um recurso econômico vital na América Latina, Espanha e em
Portugal. Muitos são os grupos de pesquisa que trabalham nesse
tema e cresce o número de países em desenvolvimento que
aprofundam estudos sobre pesca para formular estratégias de
gestão que permitam uma explotação sustentável dos recursos
pesqueiros no longo prazo, tanto para a pesca industrial como
para as frotas artesanais marinhas ou fluviais que explotam
populações pouco ou nada investigadas até o momento. Apesar da
relação tradicional que entre os países ibero-americanos existe
em termos de pesca nos níveis econômico e industrial, entre
órgãos de pesquisa tal colaboração é ainda pequena ou mesmo
nula. Assim, este Simpósio nasce vocacionado para fomentar e
potencializar a criação de redes de trabalho, das quais
participem tanto os centros de investigação de reconhecida
trajetória no assunto, como aqueles de criação mais recente.
No entanto, o I Simpósio
Ibero-Americano de “Ecologia Reprodutiva, Recrutamento e Pesca”
transcende a mera comunicação de resultados das últimas
investigações sobre o tema: ele tenciona ser, também, um foro de
comunicação entre os países Ibero-Americanos que permita
identificar e definir linhas de pesquisa com interesse comum,
assim como promover a formulação de projetos conjuntos que
fomentem a colaboração entre países com uma ampla trajetória em
investigação, avaliação e gestão pesqueiras e países, e países
em vias de desenvolvimento. Por isso, o Evento incluíra variadas
oficinas e uma mesa-redonda para identificar e expor as
preocupações e os interesses de cada país participante, visando
a reconhecer convergências que permitam o desenvolvimento de
colaborações futuras nesse tema. Além disso, o Simpósio será uma
plataforma com penetração internacional para difundir a
investigação pesqueira de qualidade que vêm realizando os
diversos Ibero-Americanos.
Temática:
O estudo da fecundidade e a
descrição da estratégia reprodutiva são temas fundamentais na
análise da biologia e da dinâmica de populações de espécies de
peixes (Hunter et al., 1992). Ademais, as estimativas de
fecundidade em combinação com estimativas da produção de ovos no
mar nos permitem estimar a biomassa do estoque reprodutor,
parâmetro fundamental para avaliar o estado das populações e
manejar as pescarias.
El conocimiento de la
importancia relativa de los factores que afectan la variación
anual en el reclutamiento es un objetivo primordial en la
ciencia y gestión pesquera (Chambers y Trippel 1997; Marshall et
al., 1998). En este contexto, la relación entre la población y
el reclutamiento es un problema central de difícil solución en
el estudio de la dinámica de poblaciones y gestión de los
recursos marinos (Hilborn y Walters, 1992).
A pesar de la discusión actual
sobre la relación entre la población adulta y el reclutamiento
(Myers, 1997; Gilbert 1997; Marshall et al., 2003), la
evaluación de la mayoría de las poblaciones explotadas de peces
se realiza actualmente en base a modelos de stock adultos versus
reclutamiento. Los modelos tradicionales de reclutamiento asumen
que el potencial reproductivo de la población es proporcional a
la población adulta (Trippel et al., 1997), usándose dicho
parámetro para establecer los puntos biológicos de referencia
(Figura 1). Los modelos de población adulta-reclutamiento
desarrollados por Beverton y Holt (1957), Ricker (1954) y
Shepherd (1982) emplearon originalmente el término de fecundidad
(Rothschild y Fogarty, 1989; Koslow, 1992), que más tarde fue
reemplazado por el término de biomasa de población adulta (spawning
stock biomass en inglés – SSB) como aproximación de la
fecundidad. En esos casos, se asume que una determinada biomasa
de población adulta tiene la misma probabilidad de generar el
mismo nivel de reclutamiento. Esto plantea que las tasas de
supervivencia de la progenie son independientes de la estructura
de edad, tamaño o condición de la población (Cardinale y
Arrhenius, 2000; Murua et al., 2003), que la fecundidad total
relativa y la producción anual de huevos por tamaños y entre
años no varía (Marshall et al., 2003) y que las variaciones en
las condiciones ambientales no afectan a la selección.
Sin embargo, han surgido
evidencias crecientes de que no siempre existe una
proporcionalidad directa entre la biomasa de puesta y el
potencial reproductivo. Trippel (1999) introdujo un nuevo
término, el Potencial Reproductivo del Stock (PRS), como
alternativa al SSB; el cual caracteriza más fielmente la
capacidad de la población para producir huevos y larvas viables
anualmente que pueden finalmente ser reclutados a la población o
a la pesquería. En este sentido, el término PRS tiene el
potencial de incluir las fases iniciales de vida relacionadas
con los procesos de reclutamiento (cuadrantes 2-4, Figura 1). En
particular, el potencial reproductivo de una población está
afectado por diversos factores, como la estructura y diversidad
de edad de la población (Marteinsdottir y Steinarsson, 1998),
proporción de reproductores primíparos (Evans et al., 1996;
Trippel, 1998) y la condición fisiológica de los progenitores (Hunter
y Leong, 1981; Ma et al., 1998); los cuales son determinantes
del potencial reproductivo de la SSB. Esta limitación puede ser
aún más pronunciada dependiendo de la estrategia reproductiva de
la especie, como por ejemplo en especies de fecundidad
indeterminada donde la producción de huevos por unidad de
población adulta y la tasa de supervivencia de huevos, larvas y
juveniles (prerreclutas) puede variar substancialmente entre
años dependiendo de las condiciones medioambientales durante la
puesta (Hunter y Leong, 1981).
O conhecimento da importância
relativa dos fatores que afetam a variação anual no recrutamento
é um objetivo primordial na ciência e gestão pesqueiras
(Chambers e Trippel 1997; Marshall et al., 1998). Nesse
contexto, a relação entre a população e o recrutamento é um
problema central de difícil solução no estudo da dinâmica de
populações e gestão dos recursos marinhos (Hilbom e Walters,
1992).
Apesar da discussão atual sobre
a relação entre a população adulta e o recrutamento (Myers,
1997; Gilbert 1997; Marshall et al., 2003), atualmente a
avaliação da maioria das populações explotadas de peixes
realiza-se com base em modelos de estoque adultos versus
recrutamento. Os modelos tradicionais de recrutamento assumem
que o potencial reprodutivo da população é proporcional à
população adulta (Trippel et al., 1997), usando-se esses
parâmetros como referenciais biológicos (Figura 1). Os modelos
de população adulta-recrutamento desenvolvidos por Beverton e
Holt (1957), Ricker (1954) e Shepherd (1982) empregaram
originalmente a variável fecundidade (Rothschild y Fogarty,
1989; Koslow, 1992), que mais tarde foi substituída pela
biomassa da população adulta (spawning stock biomass – SSB) como
aproximação da fecundidade. Nesses casos, assume-se que uma
determinada biomassa da população adulta tem igual probabilidade
de gerar o mesmo nível de recrutamento. Isso sugere que as taxas
de sobrevivência da progênie são independentes da estrutura em
idade, tamanho ou condição da população (Cardinale y Arrhenius,
2000; Murua et al., 2003), que a fecundidade total relativa e a
produção anual de ovos por tamanho e entre anos não varia
(Marshall et al., 2003), e que as variações nas condições
ambientais não afetam a seleção.
Entretanto, têm surgido
evidências de que nem sempre existe uma proporcionalidade direta
entre a biomassa de desova e o potencial reprodutivo. Trippel
(1999) indroduziu um novo termo, o Potencial Reprodutivo do
Estoque (PRE), como alternativa a SSB, que caracteriza mais
fielmente a capacidade da população para produzir anualmente
ovos e larvas viáveis que poderiam finalmente ser recrutados à
população ou à pescaria. Neste sentido, o termo PRE tem
potencial para incluir as fases iniciais de vida relacionadas
aos processos de recrutamento (quadrantes 2-4, Figura 1). Em
particular, o potencial reprodutivo de uma população é
influenciado por diversos fatores, como a estrutura e
diversidade etárias da população (Marteinsdottir e Steinarsson,
1998), a proporção de neoreprodutores (Evans et al., 1996;
Trippel, 1998) e a condição fisiológica dos progenitores (Hunter
e Leong, 1981; Ma et al., 1998). Tratam-se de determinantes do
potencial reprodutivo do SSB, uma limitação que é ainda maior
segundo a estratégia reprodutiva da espécie. É o caso, por
exemplo, daquelas de fecundidade indeterminada, onde a produção
de ovos por unidade de população adulta e a taxa de
sobrevivência de ovos, larvas e juvenis (pré-recrutas) pode
variar substancialmente entre anos, dependendo das condições
ambientais durante a desova (Hunter e Leong, 1981).

Figura 1.- Paulik (1973)
mostra que o manejo da população limita-se normalmente à área
não-sombreada (crescimento, mortalidade e maturação – quadrante
1), normalmente não incluindo variáveis de vida subseqüentes,
relacionadas ao recrutamento (quadrantes 2-4). (Fontes: Ulltang
(1996) e Solemdal (1997); reproduzido de Trippel (1999).
Considerando-se o exposto, é
evidente a necessidade de se investigar exaustivamente as
estratégias reprodutivas das diferentes espécies aquáticas, a
variação inter-anual da fecundidade e a produção de ovos do
estoque adulto, bem como a viabilidade da descendência. São
informações que nos levam a conhecer os mecanismos que regulam a
variabilidade anual do potencial reprodutivo, o quê, por sua
vez, permite explicar e predizer as variações no recrutamento.
Tal componente (quadrante 2, Figura 1) representa os processos
de produção que fornecem o número potencial de zigotos, que se
modifica por processos posteriores de mortalidade durante a
dinâmica dos estádios iniciais de vida, para chegar finalmente
ao número de recrutas (quadrantes 3 e 4, Figura 1) (Ultang,
1996; Marshall et al., 1998).
Em resumo, a proposta deste
Simpósio almeja centrar-se nas diferentes fases da Figura 1, ou
seja, no estudo da biologia reprodutiva das espécies, a
fecundidade ou produção de ovos, e os fatores que determinam/afetam
esta variável, incluindo os processos posteriores de viabilidade
e crescimento das fases iniciais de vida que determinam o
recrutamento.
Para tal, o Evento será
dividido em 4 sessões temáticas:
1. Estratégias reprodutivas das espécies aquáticas e
ecofisiologia reprodutiva.
2. Potencial reprodutivo e causas de sua variação.
3. Processos de recrutamento.
4. Implicação na avaliação e gestão pesqueiras.
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